quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sobre o vazio.

Ausência é vazio.

Algo foi deixado às pressas, a cama ainda estava desarrumada, o pão meio comido sobre a mesa, quando saiu na correria de praxe em busca de algo para fazer que garantisse o pão do próximo dia. Ou vai ver, nem havia pressa, havia só desgosto de pão. Decidiu-se que hoje não comeria o pão todo, o que abriria espaço no estômago para comer algo mais tarde, antes do almoço. Ou ainda (quem sabe!), recebeu uma ligação daquela guria jeitosa que sempre o encarava bem encarado todos os dias na porta da faculdade, dizendo para encontrá-la em tal lugar, agora, e ele foi. 
Talvez fosse também entregador de más notícias. Ou, sendo otimista, entregador de boas notícias. Vai ver estava indo pro trabalho, onde vendia pipoca para as crianças a troco de desenhos caricaturais. Ou vai ver era atendente daquela lanchonete onde os salgados dividem espaços com os mosquitos dentro daquela mini estufa. 
Independente disso, o que sobrou hoje foi um corpo jazendo sobre uma maca na sala de cirurgia. Um corpo pendurado por um fio, como as roupas num varal num dia que vem tempestade, precedida de ventania. O vento vai foooooorte, e você sabe que aquela roupa vai cair na lama, mas não sabe até quando ela vai suportar. 
O menino nunca chegou onde devia chegar, no fim das contas. Talvez não vá atrás da garota, que estava se fazendo de difícil o tempo todo, mas que gostava do jeito que ele sorria envergonhado - ou não - quando ela o encarava. Talvez as crianças da minha mente fiquem cheias de desenho e sem pipoca. Talvez não haja mais ninguém naquela maldita lanchonete pra tirar os mosquitos de lá e dar bom dia pro freguês de todos os dias. 
Acontece que aquele menino estava andando, e agora não está mais. Acontece que aquele menino respirava, e agora não o faz mais sozinho. Acontece que aquele garoto tinha todos os seus ossos inteiros, completos, e tinha cerca de 6 litros de sangue no corpo. Hoje não tem mais. Hoje tem mais fragmentos do que coisas completas dentro de si: fragmentos de ossos, fragmentos de sonhos, fragmentos de memória que vão e voltam conforme a sedação anda na sua curva de variação, fragmentos de destino que talvez sejam a sua vida toda. Acontece que naquele dia de manhã, havia um menino semente, e hoje tem um menino que foi arrancado da terra e está posto num vaso com água pra ver se sobrevive. Acontece que hoje o coração dele ainda bate, mas talvez amanhã não seja mais assim.

acontece que eu não sei lidar com isso muito bem. 

acontece que vou acabar procurando por ele a vida inteira. 

acontece que eu não sei se consigo ver alguém partir assim, tão incompleto. 

Aliás: será que incompleto?

Meus pensamentos incompletos completam minha angústia. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Acerca das coisas que não chegam à consciência como razão.

Ultimamente nessa vida eu tenho flutuado. Do passado ao futuro, às vezes sem nem passar pelo presente, que tão rápido se torna passado e nunca futuro. Tenho flutuado das manhãs às noites, e logo de novo volto às manhãs. Flutuo inerte, indiferente, insconsciente, sem querer. Flutuo do cansaço ao descanso, volto ao cansaço e fico emperrada ali como um galho que estava flutuando e foi parado por uma pedra. Depois me solto e volto a flutuar. Flutuar entre a dúvida e a certeza, pra então voltar à dúvida e também travar ali. Então flutuo mais um pouco e fico pensando se era naquele rio que eu devia flutuar... Será que eu não devia pensar maior e ir para o mar? Ou me dar ao luxo de um aquário tranquilo e monótono? Acho que nasci folha, que só flutua depois que cai de onde veio. Então eu caí, e o rio tem me levado e eu não sei onde é que vou parar - sei que é mar, mas quando é mar? quando é só agitação de uma corredeira e quando é que é mar?
Na verdade não quero mar, não quero rio, não quero lago... Só quero árvore.
Não nasci pra flutuar.

                                                                           Mas talvez tenha morrido pra flutuar. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Pressa.

Pressa.

A vida, mesmo lenta, preguiçosa, está sendo obrigada a andar depressa. Depressa, depressiva, de pressa. Está sendo obrigada a andar arrastada por um trem andando a mil por hora, para que este não passe por cima dela. 

e se ela se negasse e não fosse? o que seria da vida?

Andaria lenta, andarilha, feliz da vida, repararia nos ladrinhos (de brilhantes?) em que pisaria a cada passo, contado, calculado. 
Andaria
             de
                  sapatilha, 
                                 toda bailarina.

Andaria, serelepe, dançaria, olharia pra cima e riria com o céu. Com o sol. Com o calor. Com as flores embaraçando nos seus pés e entrando na dança da vida, divina, de virar do avesso a pressa. 
Ah, se dançássemos conforme a música!

O brisa bate leve, e não espanca por causa da pressa. Ela roça o rosto, os cabelos... De-va-gar-zi-nho. E traz refresco, traz arrepio, traz adrenalina que corre de-li-ci-o-sa no sangue. 
O Sol também irradia devagar.
O fogo queima devagar, de vagar.
A água molha lentamente, lentificando a mente que para pra olhar. 

Por que é que não dançamos conforme a canção de ninar?

Sem pressa, vai! já perdemos o trem.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Enjoy it!

Carpe diem. 
A carpa nada durante o dia, aproveitando-o.
Nada também de noite, porque nada pode impedi-la.

O dia passa. Passa por um lado do mundo, outrora do outro. 
Ele passa e aproveita cada um dos mundos. 

O tempo passa.
Pelo dia, pela noite, pelo mundo, pela carpa, pelo rio. 
Passa pelos sonhos.
Com os sonhos, o tempo os congela ou os empurra com a correnteza.
Por vezes, o tempo - alterado, maníaco - leva os sonhos também contra a correnteza.
Não como as carpas.
E sim como os salmões. 

Aos maníacos: CARPE DIEM!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Soneto do Amor Total

Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinicius de Moraes)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Alvorecer.

Eu defino o tempo que eu estou vivendo com essa palavra: alvorecer. Saindo da escuridão de uma mente técnica, conceitual, limitada e monocromática para, gradualmente, descobrir a luz da imensidão do céu. Aliás, "definir" não é o verbo certo: eu descrevo assim o que vejo. Assim como descrevo cores que vejo pela primeira vez, posso fazer apenas correlações com aquilo que já conheço e nada fica exato. 
Exato. Nada é muito -ou pouco- exato também. Afinal, 0.999999999 é 1. E que venham os matemáticos me explicarem o motivo (sério, me ensinem)!
Exatidão é limitação. A vida é integrada, o mundo é maior do que parece, o mundo é menor do que parece. As teorias existenciais fazem mais sentido, até! 
Tudo, então, é descoberta pra mim. 
As conexões de pensamento estão centradas em outros assuntos, outras divagações, de forma que nada que tente unir o que se passa na minha mente consegue ser feito de maneira adequada. Adequado seria a palavra certa, afinal? 
Bem. 
As pessoas nos surpreendem. Eu me surpreendo. Que beleza há nas surpresas diárias! Que sustos há nas surpresas diárias! 
A mente aos poucos vai se expandindo, se dilatando como o corpo da mulher que dá a luz, para expelir as ideias, concebê-las, para que possam crescer e se desenvolver aqui fora. 
A vida sempre foi muito bonita, pra mim.
E agora já é muito mais. (!)


sexta-feira, 21 de março de 2014

Deleite.

Há quase três anos eu consigo escrever sobre o amor de uma maneira mais real. E todos os dias aprendo algo novo do Amor. Hoje aprendi algo que sempre senti e nunca consegui definir: o prazer. Não o prazer sexual, não é isso. Digo o prazer de ser de alguém, de estar com alguém, o deleite proporcionado por alguém. Eu me deleito na presença dEle. Sinto paz e alegria ao simples prazer de estar. Estar aqui como verbo intransitivo, o qual não precisa de complemento. Afinal, só estar já é estar nEle, porque nEle estão todas as coisas. 
Quero me deleitar em Ti, Senhor, todos os dias em que eu respirar.

 E depois também. 

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